Barbarela

Escrivinhações da oficina do Cuenca...
Barbarela é a cidade do não-lugar. Ao sobrevoar o céu manchado de cinzentas, percebo que não existem casas e construções, mas tendas feitas por tecidos finos e transparentes. As vidas são expostas aos amantes do olhar. Não existem ruas e placas, são proibidos referenciais. A população transita de um canto a outro, tal como nômades sem horizonte. Insetos enormes são animais de estimação. Agem como cães de guarda raivosos infectando os estrangeiros desavisados e os loucos por comprometimento.
A vida em Barbarela é feita sem passado e tradição. À primeira vista, é difícil compreender o porquê das mãos disformes dos idosos que se põe a profetizar. “É o reflexo do tempo”, explica o piloto. Os mais assanhados têm as palmas das mãos gordas, inchadas, marcadas pelos inúmeros relacionamentos e pelo calor das outras mãos. A cidade vive em alerta, atenta ao perigo de se relacionar.
Em Barbarela, impera a lei do terror. Os mais neuróticos dormem e acordam incorporados aos seus escalafobéticos óculos escuros. Reza a lenda que, entre os habitantes, há seres geneticamente modificados, fruto de relações sexuais primitivas, com a capacidade de enxergar através do olhar do outro. São os chamados sugadores. Eles devassam sentimentos e irrompem a barreira do toque. Os estrangeiros se precipitariam e diriam que Barbarela é o paraíso, mas eles desconhecem as sutis leis da liberdade que escravizam os cidadãos condenados a gozar à distância.

1 Comments:
Nao sei porque mas me veio e mente H.G.Wells em "A Maquina do Tempo". Futuro aonde a sociedade - ao inves de evoluir - volta, de certa forma, no tempo. Mutantes que vivem no subterraneo e "humanos" sem industrias vivendo na superficie. Um classico aonde podemos inserir metáforas se pensarmos no Mundo que criamos pra viver.
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