Monday, July 14, 2008

Saídas de emergência


Alfavaquinha de cobra, fedegoso, oficial de sala, funcho, trançagem. Afrodisíaco é bete cheiroso e negamina pra quem quer dinheiro. Todo dia é a mesma coisa. Já decorei tudo de tanto ouvir. A barraca do Aquilino é a mais cheia. Eu ando de canto a canto, mas ninguém tem a manha dele. As madames gostam e voltam com um agrado. Ele é forte e usa blusa regata. Aproveita pra mostrar o músculo do braço quando carrega as sacolas das donas.
- Qual o problema de fazer um extra? – ele sempre pergunta.
Eu não sei. Minha mãe diz que umas coisas a gente só aprende depois de grande. A nossa feira é numa praça de Copacabana. Tem moça vestindo blazer preto e shortinho, empregada mandando na patroa e até velha maluca carregando uma mala e rezando de frente pro sol. Todo mundo vai de sapato maneiro. O Aquilino usa nike branco.
Meu ponto é embaixo da placa “Praça Edmundo Bittencourt”. Outro dia, eu tava esperando o ônibus e decidi: quero ser igual a ele. O Aquilino chegou e puxou papo com uma menina que tava do meu lado. Bonita, cabelo cacheado, gostosa. Ela perguntou o que ele fazia.
- Sou raizeiro – explicou, de peito estufado.
Ela tá amarradona. Vem sempre visitar ele na feira. As madames não gostaram muito. Nem o bolso dele. Eu tento brincar com as pessoas pra vender mais alho. Não adianta. Não consigo fazer igual ao Aquilino. No final do dia, volto com a metade dos saquinhos na mochila. Já tentei falar pra minha mãe que é melhor vender limão, mas ela diz que alho é útil. E quatro cabeças só custam R$ 3,00. Quem não vai comprar?
Eu não entendo como a menina foi gostar dele. O cara é velho. Deve ter uns trinta anos. E o pior: vende as ervas só por R$ 2,00. Eu queria saber como ele comprou uma moto. Meu plano é colar nele e depois sumir pra outra feira. Não é justo o Aquilino sacar de folhas sozinho.
- Tem que estudar, ter boa memória...- vive repetindo para mim. Ele acha que sou otário porque tenho onze anos. Duvido que saiba pra que serve cada planta daquela. Aposto que fala qualquer nome pras pessoas. Se eu fosse elas, não confiava. O Aquilino parece um preso com aquele cabelo raspado. Hoje, eu tava à toa com os alhos e reparei nos homens atrás dele na barraca.
- A coisa tá feia, não tem essa de sexo não.
Eu, hein.

1 Comments:

At 8:25 AM, Anonymous Anonymous said...

Bom hein? Fiquei amarradão.
beijo
RB

 

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