Sunday, June 29, 2008

CARTA: Sou borboleta


(da série cartas imaginárias...)

Urucu, 27 de abril, de 1997

Meu amor,

espere-me no raiar do dia. A brisa leve da manhã o acordará com meu perfume. Seu corpo ficará entranhado pelo meu cheiro. Ao despertar, sorrirá confuso ao perceber que tudo não foi um sonho.Estivemos juntos: em todas as lembranças, nas fotos no computador, na dor da nossa saudade. Nossos pensamentos estão emaranhados, nossa respiração em compasso. De amores não morremos, mas de cimento sim.

Aqui o verde é mais verde, os matizes são mil e a aurora é mais sincera. Você já pensou sobre isso? Repare no horizonte de sua janela. Nas grandes cidades, o azul desbotado do céu é a farsa dos tintureiros que vendem sonhos de padaria. Aí vocês acordam com o dia projetado pelo senso comum. Não há espaço para o azul cintilante, aquele que vemos nos olhos dos apaixonados.Os que amam são pássaros perdidos nessa selva de concreto.

Perdoe-me. Sou borboleta. Meu revoar desmoronaria as verdades de argamassa. Até as formigas ficariam aturdidas.

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