CONTO: Os dedos longos e finos de Maria Antonia
"O mundo está desabando", anuncia o barulho da chuva. Lá fora, o céu está cinza e os bueiros transbordam a sujeira das pessoas. O mundo está desabando. Eu vou me salvar com a capa que a Rosália me deu. A força da água, que desce arrastando a vida na favela, não é páreo para a minha capa importada e transparente. Eu vejo os barracos deslizarem daqui. Estou trancado no quarto. Tudo é plano de Deus. Eu tive que conhecer a Maria Antonia para usar a capa que a Rosália me deu. A brancura da chuva fica manchada de mentira dos políticos. Doenças vazam. Mas é coisa de Deus. ELE testa a nossa consciência. Eu vou me salvar com a capa importada e transparente e a Maria Antonia não. Ela é a tentação. Na favela, toda a porcaria vem à tona. Mas ela é do asfalto e vai fugir pelo esgoto. A Rosália é o anjo torto. Deve estar num lugar alto e seguro. Ela me trancou porque eram os planos de Deus. Agora, a chuva invadiu a sala. Eu vou usar a minha capa importada e transparente para vencer a chuva. As pessoas não vão morrer. Já escuto o anúncio do milagre pelos dedos de Maria Antonia. Deus tinha um plano para mim. Ela tem os dedos longos e finos. As unhas são desenhadas. ELE escreve certo por linhas tortas. Todo homem sabe. Só as mulheres que não. Por isso, Rosália me trancou no quarto. A esta altura, a água ganhou o banheiro. O barulho é forte e quase não escuto a música dos dedos longos de Maria Antonia. Ela tem um toque suave e delicado. Suas mãos parecem com as de Deus. Ela é a tentação. Rosália não entendeu. Aqui é um cubículo. O meu espirro inunda o quarto. Vou fazer a chuva parar. Tenho fé. Só morre quem tem que morrer. Tenho um dom. Espero o sinal de Deus para agir. As pessoas do jornal vão saber. Tudo é plano de Deus. A Maria Antonia vai fugir pelo esgoto e suas mãos rosadas vão ficar encharcadas pelo descaso do asfalto. A água está entrando. A fresta da porta é grande. Deus sabe o limite. Vou esperar. A pressa põe tudo a perder. Todo homem sabe. As mulheres é que não. Minha capa é quente, mas a água é fria. Meu umbigo está molhado. A música de Maria Antonia voltou. A água barrenta segue o som. Sinto o peito gelado. Pára, Maria Antonia! Ela quer me matar e fugir pelo esgoto. Seus dedos longos e finos não são mais os de Deus. Câmbio! O sinal. Deus. A minha capa impor... Água. Vou fazer a chuva parar. Não posso abrir a boc

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