CARTA: Embriaguez

(da série cartas imaginárias...)
Maceió, 25 de março de 1997.
São onze e cinqüenta e cinco. Eu te amo. Na solidão desse quarto de hotel, as pontas de cigarro lembram o meu fracasso. Assim como você. À minha esquerda, tenho folhas amassadas, rabiscadas com o rancor do seu olhar.
Meia noite e dez. Talvez ainda te ame. Não garanto. Odeio falsas promessas. Quem domina a retórica é você. Muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Não me obrigue, ouviu?
Meia noite e trinta e sete. Chega de perguntas. Que importa o que sinto? Você vai para o fundo da carteira. Não tenho outra saída. Juro que tentei. Eu te odeio e a culpa é sua.
Faltam dez para a uma da manhã. Você ainda insiste em me encarar. Sua frieza escorre por esse 3x4. Você sabe que continua em mim.
Puta que pariu. Você é um vício. Mas o que custa outra dose? Já te dei meus pensamentos, meu corpo, meu bolso, minha alma. Eu te quero mais.
Agora, o relógio vagabundo, desse hotel de quinta, marca uma e três. Não tenho outra dose de você. Bebi tudo. Em um único gole. Do jeito que você gosta.
É uma merda. Você me queima inteiro. E não é por um instante.

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